![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
26/10/2005 19:28
O CORVO
Edgar Alan Poe
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
e já quase adormecia, ouvi o que parecia
o som de alguém que batia levemente a meus umbrais
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio de dezembro,
e o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais
Como eu queria a madrugada, toda a noite a livros dada
p’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
E mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
que mal ouvi...” E abri largos, franqueando-os meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
dúbio e tais sonhos que sonhando que os ninguém sonhou iguais
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
e a única palavra dita foi um nome cheio de ais
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela,
vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais”.
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
com o solene decoro de seus ares rituais
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas nobre e ousado.
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
inda que pouco sentido tivessem palavras tais
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos – mortais
todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.
A alma súbito movida por frase tão bem cabida
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais
E o bordão de desesperança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
e, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
que queria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira ave dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
à ave que na minha alma cravava os olhos fatais
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
no veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez então o ar mais denso, como cheio dum incenso
que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
o esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
o nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais,
o nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
a este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
a esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
se há bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse, “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
no alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
e a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Edgar Alan Poe (Tradução - Fernando Pessoa),
enviada por Gangrel

Alcariquë
Blog da Sister
Restless Tears
Vampira's Blog
Lilith's Moon
Erick in Chains
A Exorcista
Lovely Secrets
Blood Rose
Filha da Escuridão
Lyllu Heroina
A Donzela Guerreira da Escuridão
Elfo das Trevas
GTTM Mano Colorada
Submundo da Lairë
Vaga-Lume
Isilehtyar - O Lanceiro da Lua
DeatH_KnighT
I Taurë
* Luthuriel Dark Lady *
HISTERIA DARK
